5. INTERNACIONAL 17.10.12

UM FUTURO MUITO PIOR
Chvez quer usar o quarto mandato para aprofundar a cubanizao da Venezuela, mas sua sade pode influir nos rumos do pas.
NATHALIA WATKINS, DE CARACAS

     A vitria de Hugo Chvez nas eleies presidenciais do dia 7 de outubro ocorreu em meio a uma certeza e a uma incerteza. A certeza  que o caudilho, que recebeu 54% dos votos, pretende fazer mais do mesmo. A incerteza  se ser capaz de governar at o fim de seu quarto mandato, desta vez de seis anos. Seu principal adversrio, Henrique Capriles Radonski, advogado e governador do estado de Miranda, teve quase 45% dos votos. Foi a maior votao obtida por um candidato da oposio em eleies presidenciais desde que Chvez assumiu o poder, h treze anos. Se no ficar incapacitado para governar por causa de um cncer operado em meados do ano passado (detalhes sobre a gravidade da doena so segredo de estado), o presidente completar vinte anos no comando de um projeto alucinado que tem destrudo as bases econmicas do pas. De agora em diante, ele promete tornar a sua revoluo socialista irreversvel. Suas polticas incluiro, como sempre, confisco de empresas, perseguio aos opositores e  imprensa independente, controle artificial dos preos, centralizao da economia e submisso da Justia aos interesses do partido no poder. O que j est ruim tende a piorar.
     Depois de assumir o controle da produo e da importao de alimentos, cujo efeito previsvel foram prateleiras vazias e inflao, o governo agora pretende dominar o mercado de remdios. Chvez tambm seguir sugando a petrolfera PDVSA, cujas receitas ele distribui  populao em troca de voto. Essa prtica fez com que a dvida da estatal, antes de 6 bilhes de dlares, j supere os 50 bilhes de dlares. O crescimento econmico da Venezuela se baseia em elevadssimos gastos governamentais  custa da PDVSA.  um modelo que no se sustenta, diz o economista Jos Toro Hardy, ex-diretor da empresa. Como no se investiu na manuteno de equipamentos e em novas prospeces, a produo de petrleo caiu 22%. Para ter liquidez, a estatal recorre ao Banco Central. Sem sua galinha de ovos de ouro, o governo continuar buscando recursos no exterior. Em treze anos, Chvez multiplicou por sete a dvida externa da Venezuela. Os laos com o narcotrfico, outra fonte de receitas, tambm crescero. O pas hoje  o caminho de 24% da cocana enviada para fora da Amrica do Sul.
     At 2019, a Venezuela se consolidar como um estado policialesco. As milcias chavistas, que j tm 125.000 homens e mulheres de prontido, esto prestes a superar o contingente das Foras Armadas. Sua funo, por enquanto,  fazer a segurana de atos polticos do presidente, mas podem ser convocadas para fazer frente a qualquer fora que ameace, ainda que dentro da lei, a permanncia do chavismo no poder. Nas salas das universidades privadas, um dos ltimos redutos institucionais ainda livres do domnio poltico de Chvez, esse estilo de governo foi batizado de medocracia. Metade dos eleitores, segundo uma pesquisa de opinio feita antes das eleies, temia as consequncias de no votar no presidente. Esse medo baseia-se na convico de que o governo  capaz de manipular as urnas eletrnicas para saber como cada cidado votou. O sigilo eleitoral j foi violado no passado, quando aliados do presidente elaboraram uma lista com o nome de todos os venezuelanos que foram a favor da convocao de um referendo contra Chvez, em 2004. O governo usa essa lista para barrar os cidados na ocupao de cargos pblicos e no recebimento de benefcios sociais. O velho mtodo do curral eleitoral tambm  utilizado. No domingo passado, havia mesrios votando no lugar dos eleitores ausentes ou permitindo que militantes chavistas acompanhassem os cidados na cabine de votao.
     Seria de esperar que a oposio denunciasse as fraudes e os desequilbrios no processo eleitoral. Capriles, porm, no se cansou de pedir, durante a campanha, que os eleitores acreditassem na lisura do pleito. H dois motivos para essa postura. Primeiro, porque as urnas so o nico meio disponvel para conter a concentrao de poder do presidente. Como no h independncia dos poderes, os abusos de Chvez e de seus correligionrios no podem ser levados  Justia, como ocorre no Brasil. Para fazer bonito nas urnas e dar fora  oposio nas prximas eleies regionais, Capriles precisava da disposio de seus apoiadores de ir votar. Segundo, porque a oposio acredita que a doena de Chvez no lhe permitir concluir o mandato. Se isso ocorrer nos primeiros quatro anos, a lei prev a convocao de uma nova disputa presidencial. Nesse caso, Capriles estaria bem posicionado para vencer quem quer que queira dar continuidade aos desvarios chavistas. Se Chvez for afastado por motivos de sade nos ltimos dois anos do seu mandato, porm, quem assume  o vice, Nicols Maduro. Em junho, na funo de chanceler, ele foi a Assuno, no Paraguai, incitar os militares a impedir o Congresso de votar o impeachment do presidente Fernando Lugo. O chavismo, com ou sem Chvez, no combina com democracia.


